
Escrito por Mário Hélio
fonte: http://www.continenteonline.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=168
Inglês, francês e italiano. Dessas línguas você vem traduzindo alguns dos autores mais destacados. É possível tanta versatilidade e domínio de linguagens?
Ninguém se torna poeta ou tradutor de um dia para o outro. É preciso uma longa ascese de dedicação e estudos, e, creio mesmo, um certo jeito para a coisa, algo que não se aprende nos livros, mas que habita, como um sexto sentido, o nosso interior. Uma série de circunstâncias felizes permitiram, no meu caso, o convívio direto com algumas línguas estrangeiras, o que facilitou bastante meu trabalho, mas sou dos primeiros a afirmar que o tradutor não tem necessariamente que falar as línguas que traduz. Deve, sim, conhecer em profundidade a estrutura delas, domar-lhes a semântica, aprender a identificar seus truques e peculiaridades. Há inúmeros exemplos de excelentes tradutores que eram incapazes de se exprimir em outras línguas. Na verdade, o grande instrumento do tradutor é o seu próprio idioma, que ele deverá dominar a ponto de saber adequá-lo aos vários registros vocabulares e fraseológicos dos textos que traduz. Requer-se ainda uma boa formação humanística que lhe permita situar-se por dentro dos assuntos versados. É claro que há mais coisas: a questão do estilo, por exemplo. Mas a resposta ficaria muito longa.
Quando, como e por que você decidiu tornar-se tradutor?
Há sempre alguém que nos ajudou de uma forma ou de outra, voluntária ou involuntariamente. O gosto pela poesia, que em mim nasceu muito cedo, creio que me foi despertado por um tio, autodidata, que me ensinou a metrificar e me dava livros de poesia para ler. Quando peguei no primeiro livro em língua estrangeira (em espanhol), eu mal entrava no ginásio, mas senti a imediata compulsão de traduzi-lo. Lia-o em voz alta sem saber ainda como se pronunciavam as palavras e cometia os mais absurdos erros de transposição. Mais tarde, já no ginásio, comecei a estudar francês e inglês e cismei, na minha presunção, de traduzir Shakespeare e Baudelaire. Copiava livros nas bibliotecas e levava os textos para casa, onde, catando as palavras no dicionário, produzia verdadeiros monstros literários. Das várias tentativas que fiz nessa época para traduzir um livro, só uma chegou a termo, Le Retour de l´Enfant Prodigue, de André Gide, texto que me tocara de tal forma a ponto de ser para mim impositivo traduzi-lo. Mas havia trechos que me enchiam de perplexidade. Certa vez li que o Otto Maria Carpeaux não deixava carta sem resposta e resolvi escrever-lhe sobre as dúvidas que o texto de Gide me suscitava. Carpeaux cumpriu a promessa e fiquei sabendo que determinada palavra era um expletivo estilístico, que outra entrava como reforço da negação, que outra ainda tinha um sentido que escapava aos dicionários etc. Enfim, aprendi que uma língua era uma coisa viva, que cada autor tinha a sua maneira de escrever, o seu estilo, absolutamente imprescindível de se conservar na tradução. Mais tarde, na universidade, cursando neolatinas, tive o incentivo de meus professores José Carlos Lisboa e Luce Ciancio a que continuasse no estudo de línguas e no exercício de traduções que então fazia como deveres de classe. Foi com a tradução de um soneto de Rilke que entrei para a redação do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, onde pontificavam Mário Faustino, Reynaldo Jardim e Ferreira Gullar, com os quais muito aprendi. Pouco depois, trabalhei em enciclopédias com Antônio Houaiss e Carlos Lacerda, pertenci ao grupo inicial da revista Senhor, onde encontrei o Paulo Francis, que concretamente me encaminhou para o metier incumbindo-me de traduzir as novelas e contos estrangeiros que apareciam na revista. De todas essas pessoas recebi alguma ajuda que contribuiu para a minha formação, para que eu me conscientizasse de que a tradução é um terreno minado, cheio de armadilhas, e que fatalmente cairemos em algumas delas antes de podermos caminhar com segurança. Lembro-me que, numa tradução de verbetes para uma enciclopédia judaica em que colaborei, traduzi por engano a palavra cloak (casacão) como se fosse clock (relógio), resultando daí um texto hilário. Vendo meu embaraço diante do engano, Dr. Elias Davidovitch, tradutor das obras de Freud e Zweig, me disse: “Podemos escrever um livro com os escorregões a que todos nós, tradutores, estamos sujeitos. Um dia você contará este caso a alguém, sorrindo, mas certo também de estar passando adiante uma advertência e um exemplo”.
A maioria dos tradutores tem uma espécie de teoria, ou pelo menos os ingredientes do bom traduzir. Senão a receita, pelo menos, quais as dicas e os truques que você mais utiliza no seu ofício de tradutor?
Considero-me um tradutor profissional altamente diletante. Não posso negar que as traduções em certas oportunidades me renderam alguma coisa, embora seja praticamente impossível, entre nós, viver só de traduzir. Mas sempre tive o prazer de trabalhar sobre textos que admirava, indicados por mim aos editores, como o Demian, de Hermann Hesse, por exemplo, que constituiu um divisor de águas em minha vida. Esse desligamento do fator econômico ou da urgência de entrega dos trabalhos me permitia um mergulho maior nas obras do autor, o cotejo com outras traduções, a pesquisa e consulta sobre qualquer palavra ou frase que escapasse à minha interpretação imediata. Meu método consistia em colocar-me na posição de leitor privilegiado capaz de perceber os recursos estilísticos de cada autor, sem deixar passar nenhuma palavra, referência ou citação que não fosse absolutamente clara para mim. O que sempre busquei numa tradução foi transmitir ao leitor brasileiro, além obviamente do significado do texto, também a maneira, a forma como tal significado foi expresso, valendo-me para isso dos correspondentes recursos estilísticos em português.
Não me sinto capacitado a dizer como se deve traduzir ou o que é necessário para se traduzir bem. Claro que os bons livros de referência (enciclopédias, dicionários, falsos amigos etc) são ferramentas de trabalho sem as quais não se pode operar. Os livros sobre teoria da tradução não irão acrescentar muito à habilidade ou pendor de quem se dedica a essa tarefa, mas há um livro que li há muitos anos, hoje certamente esgotado, que me infundiu um profundo respeito pelos textos que traduzia: A Arte de Traduzir, de Brenno Silveira, editado pela Melhoramentos. Outros manuais de conscientização tradutória são os livros do saudoso professor Paulo Rónai, que considero imprescindíveis.
Como e por que tradutor é e não é traidor?
O problema da tradução está colocado em termos antagônicos: ou nada é traduzível ou se pode traduzir tudo. Segundo o primeiro argumento, mesmo de uma língua muito próxima da nossa como o espanhol, a tradução perfeita é impossível: sangre, por exemplo, não seria traduzível por sangue, pois a palavra espanhola tem um background emocional que transcende sua correspondente portuguesa. Além disso, a sílaba gre é mais agressiva que o nosso gue, que contribui assim para diluir o impacto verbal do vocábulo. Assim sendo, uma tradução seria sempre uma traição por não conseguir corresponder na íntegra aos valores do original. Já no segundo argumento tem-se que toda tradução é uma tentativa de reescrita de um momento estilístico ocorrido originalmente em outra língua, passível portanto de encontrar sua forma ou uma forma equivalente ou aproximada no idioma do tradutor. Sob essa óptica, textos de extrema dificuldade, como o Ulisses, de Joyce, por exemplo, são perfeitamente traduzíveis, porque o bom tradutor conseguirá sempre uma equivalência capaz de reproduzir em seu idioma a estrutura e os efeitos estilísticos do original. Os livros de Guimarães Rosa, criador de uma linguagem toda sua, que transcende o linguajar habitual, que se sobrepõe mesmo à nossa própria língua portuguesa, como quase formando um dialeto, encontraram em seu tradutor alemão um fiel intérprete, capaz de recriar em sua língua a linguagem artificial, inventiva e inovadora de Rosa. Mas quando se fala habitualmente em traição tradutória, lembrando o surrado provérbio italiano Traduttore, traditore (nascido talvez da facilidade do trocadilho), o que se quer assinalar são as “mancadas” que os tradutores cometem em seu trabalho. Houve uma época em que o erudito poliglota Agenor Soares de Moura fazia semanalmente no Diário de Notícias, com serena isenção, a crítica de traduções. Creio que foi a partir dessa época que se passou a ter entre nós uma consciência do dever do tradutor, que os leitores passaram a valorizar aqueles profissionais eficientes que eram até então desconhecidos e anônimos.
Além de tradutor, ou melhor, acima da tradução que você faz, há o poeta que você é. Como conciliar a sua própria voz com as tantas vozes que você verte para o português?
Confesso que a tradução de obras de grande valor literário acabou por desenvolver meu senso crítico ao ponto de inibir minha própria produção literária. Até hoje só publiquei, de mim mesmo, dois livrinhos de versos, ambos editados em Portugal, onde morei por dez anos; e, mais recentemente, um ensaio, O Corvo e suas traduções, que saiu pela Lacerda Editores. Meus poemas reunidos estavam envelhecendo na gaveta e só agora decidi publicá-los juntamente com os mais novos. Na adolescência, fui um poeta prolífico; com o tempo tornei-me bissexto. Mas espero publicar brevemente a antologia para não passar afinal como poeta póstumo. É curioso notar que, embora eu tenha convivido durante largos anos com a poesia e a prosa de vários escritores de grande poder de influência, como Rimbaud por exemplo, não encontro vestígios nem da temática nem da estilística de nenhum deles em meus trabalhos originais. Parece que o eu-poeta e o eu-tradutor viveram em mim vidas independentes embora paralelas.
Dá pra viver só de tradução no Brasil?
Suponho que haja um reduzido número de pessoas que possam viver exclusivamente de traduzir. Não se pode falar ainda, entre nós, de uma profissão organizada e rentável, embora haja órgãos que estejam procurando disciplinar a atividade, como o Sinatra (Sindicato Nacional de Tradutores – Rua da Quitanda, 194 – salas 1206/7 – tel 2531616, no Rio, com site na Internet www.sintra.ong.org) e a Abrates (Associação Brasileira de Tradutores – mesmo endereço e telefone, e-mail abrates@sintra.ong.orgEste endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. ) que estão procurando fixar um sistema de credenciamento a nível nacional mediante concurso a que são submetidos os seus associados. A televisão abriu de repente um fabuloso mercado para essa atividade: são centenas de filmes, documentários, entrevistas, programas seriados, que têm de ser legendados ou dublados todos os dias. Há várias empresas que contratam tradutores para formar suas equipes. O mal é que, ao abrir esse mercado, espetacularmente amplo, elas acabaram por transformar a atividade num bico passível de ser desempenhado por qualquer um que tenha um rudimentar conhecimento lingüístico aliado a uma deplorável ignorância humanística, sem falar no deprimente manejo de seu próprio idioma. Daí vermos todos os dias, nas legendas e diálogos da televisão, absurdos como o desaparecimento dos verbos transitivos diretos (agora parece que o único pronome disponível é o lhe), a utilização aleatória da crase (à pagar, à todo vapor etc), a referência ao filósofo Plato e às florestas de Burma, sem mencionar os descalabros vocabulares cometidos em nome de uma “atualização” da linguagem, que serve para mascarar a precária formação cultural de seus executores.
O pior de tudo é que a mídia atribui ao público um nível cultural cada vez mais baixo para poder justificar a baixeza do produto que ela obtém com seus miseráveis pagamentos. Com isso se deseduca o povo e se permite que um bando de ignorantes se arvorem em mentores da língua.
Por sorte, a par desse estímulo à violentação da linguagem promovido pela televisão, alguns editores estão procurando lançar no mercado traduções de qualidade, valorizadas por profissionais de mérito, infelizmente cada vez mais raros, pois as próprias editoras praticam preços nada estimulantes para quem se dedica verdadeiramente a essa tarefa cheia de percalços.
Há algum texto ou livro que você considera especialmente difícil ou impossível de traduzir?
Acho que foi Vida, modo de usar, de Georges Perec, livro que traz o sintomático subtítulo de Romances, no plural. Trata-se de um verdadeiro exhibit estilístico, em que o autor navega por quase todos os gêneros literários, desde a narrativa clássica até a novela policial, com um número astronômico de referências que se não forem devidamente decodificadas pelo tradutor podem levá-lo a insanáveis enganos na tradução. O livro tem acrósticos, oxímoros, trocadilhos, citações truncadas, palíndromos e quantos outros palavrões se possa imaginar. Depois de passar por essa selva selvaggia, traduzir O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, foi quase um passeio, muito embora o referencial cultural seja ali quase asfixiante e requeira boa familiaridade com a chamada literatura esotérica.
Em se tratando de poesia, convivi largos anos com Shakespeare e Rimbaud antes de traduzi-los e levei muito tempo durante os trabalhos de tradução, no primeiro para me familiarizar com o vocabulário elisabetano, no segundo para conseguir atingir o pique do incrível moleque de Charleville. Porque Rimbaud é um caso à parte da literatura mundial. Cresce de verso a verso, avança para o Impossível de poema a poema; tem a palavra exata, que ele guardou da província ou que forjou na hora, e suas imagens são sempre ousadas e frenéticas. Traduzi-lo como se fosse um poeta parnasiano qualquer ou mesmo um simbolista avançado, ou, o que é ainda pior, traduzi-lo sem nenhum critério ou conceito formado, sem ter estudado em minúcia a sua dicção, é traí-lo inapelavelmente. Não é à toa que se contam os já milhares de livros (a Biblioteca de Charleville tem 3.817) escritos sobre ele, dos quais só pude ler e adquirir cerca de 150.
Muito trabalhosa, pois requeria a substituição de versos de minha própria autoria pelos versos do original quando os mesmos não funcionavam literalmente em português, foi a tradução de Os Gatos, de T. S. Eliot, que fiz com imensa alegria e excitação, estimulado por José Guilherme Merquior, quando ambos morávamos em Londres.
Um texto que considero um desafio, embora ultrapassável, é O Corvo, de Poe. Desde que conheci a tradução de Milton Amado achei que seria inútil e mesmo impossível conseguir um resultado melhor que o dele; preferi escrever um livrinho para dizer e provar isso. Nunca tentei, mas acho que me sentiria “derrotado” se tentasse traduzir Le Cimetière Marin, de Valéry. É um poema sobre nada, feito talvez para provar que era possível fazer-se decassílabos perfeitos apesar da tradição alexandrina da poesia francesa. Cada verso é um estudo de combinações sonoras, de claves, de variações rímicas e rítmicas, culminando por frases de grande impacto, como o “Zenão, cruel Zenão, Zenão de Eléia”, com sua flecha que vibre, vole et qui ne vole pas. Impossível de se obter uma tradução métrica e rimada, e ao mesmo tempo manter a mestria da confecção desses decassílabos.
Como você vê hoje a situação da poesia? Os poetas atuais têm mais ou menos oportunidades que os poetas antigos?
Admito que a poesia esteja atualmente em alta, contando com inúmeros meios de divulgação além do livro: os suplementos, as revistas, as antologias, as cooperativas de poetas e principalmente a Internet. Essa facilidade de chegar ao público dá ensejo naturalmente a uma enxurrada de subpoesia, de equívocos poéticos de todas as espécies. Mas desse lixo todo sobra sempre alguma coisa capaz de amadurecer e perdurar.
E o seu livro, como será?
Morei em Portugal dez anos, de 1973 a 83, onde fui editor da revista Seleções do Reader’s Digest e subgerente da agência local do Banco do Brasil. Em 1980 escrevi um longo poema intitulado Papel & Chão, uma espécie de réplica moderna ao Babel & Sião, de Camões, cujo quarto centenário da morte então se comemorava. Juntei os meus inéditos a ele e publiquei Nau dos Náufragos, no ano seguinte, pela Editora Minerva, de Lisboa, numa tiragem de apenas 500 exemplares para distribuir entre os meus amigos portugueses e brasileiros. O título do livro sugeria que os poemas ali reunidos eram os salvados de uma seleção rigorosa que fiz a tudo o que havia escrito até então. Durante os cinco últimos anos que morei em Lisboa, residi no Palácio Fronteira, em São Domingos de Benfica, que hoje abriga um centro cultural. O atual marquês de Fronteira, D. Fernando Mascarenhas, é tetraneto da marquesa d’Alorna, a famosa poetisa portuguesa mais conhecida pelo nome árcade de Alcipe. Em meu escritório no palácio havia um quadro representando o Conde de Oeyenhausen, marido de Alcipe e pintado por ela. Tudo evocava a sua imagem e durante todo o tempo em que ali morei pensava escrever um poema sobre o palácio, seus fantásticos azulejos, seus jardins, onde havia a estátua de um guerreiro derrubado, a cabeça enterrada na grama e as costas vazadas pelo suporte de ferro que havia em seu interior. Mas só muitos anos depois, já morando em Paris, o poema explodiu em mim, de um momento para outro, e escrevi, quase de um jato, As Quatro Visitações de Alcipe, que foram editadas pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna em 1991. Estes dois livros e mais os poemas que escrevi posteriormente estão sendo reunidos em livro a que denominei A Caça Virtual e outros poemas, que deverá ser publicado ainda este ano, possivelmente pela Imago, do Rio de Janeiro. A publicação está sendo continuamente protelada por mim por achar que o poema título não está de todo realizado e aguardo com paciência a sua conclusão.
E virão novas traduções?
Considero encerrada a minha carreira de tradutor de poesia com o Diário Póstumo, de Eugênio Montale, que a Record acaba de lançar. Durante muitos anos me preparei para traduzir Ossos de Sépia, mas do projeto só chegaram a bom termo os cinco poemas que incluí na minha antologia de traduções O Torso e o Gato. Não gostaria de encerrar minhas atividades literárias sem ter publicado o terceiro e último volume das Obras Completas de Rimbaud, que reúne a sua correspondência. É bem verdade que sempre me senti realizado fazendo traduções de poesia, e tenho dito que talvez a minha melhor poesia esteja em minha traduções, mas agora é tempo de mostrar as minhas próprias, tanto as mais recentes quanto as bem antigas, alguns poemas de amor da juventude que ainda hoje considero válidos.
Quais são suas relações com os chamados livros virtuais?
Confesso que não sou fã do e-book. Não consigo ler um poema na tela do computador. Deve ser uma idiossincrasia ou saudosismo talvez. Amo o livro de papel, que cheira a tinta, que você agarra na mão, abre e como que mergulha num abismo onde pode haver de tudo. A tela, plana, jamais consegue me dar essa sensação de mergulho, de penetração. O passar de página é a testemunha temporal desse avançar nas profundezas insuspeitadas da leitura. Mas tenho certeza de que o e-book tem um futuro: as novas gerações, acostumadas à técnica, ao apertar de botões, ao clicar e ao deletar, irão curtir o livro eletrônico assim como as outras gerações curtiram o livro de papel. Mas ambos caminharão juntos, supletivamente, não vejo conflito entre os dois, nem a destruição de qualquer deles.
Você teria dito num programa de tevê do Pedro Bial que “poesia é coisa para jovem”. Foi uma tirada humorística ou você realmente pensa assim?
Fora do contexto, a frase pode parecer especiosa. Quis dizer que os poetas maduros, por sua experiência literária, sua vivência, a cultura adquirida, a busca de caminhos e a sedimentação final são capazes de produzir grandes obras, mas todas previsíveis: serão, no máximo, a estratificação do que já vinham fazendo. Enquanto o jovem, inculto, irresponsável, absolutamente virgem em termos de experiência vital e mais ainda de conhecimento literário, mas ingênuo suficientemente para se acreditar um inovador, um prospector, um descobridor de mundos, embora se deslumbre com tudo aquilo que para nós é o déja-vu – esse talvez seja capaz de produzir, por acaso, essa faísca, esse “frêmito novo” com que todos nós sonhamos. A ironia, como vê, encerra alguma coisa de verdade. E aconselho aos jovens poetas que poetem, que façam suas imbecilidades, suas letras de música sem pé nem cabeça, que incidam em todos os inevitáveis equívocos, pois pode estar aí a linguagem do futuro.